GUIA EPI #7 - Protetor auricular: tipos, como escolher e como usar corretamente
- Priorize Planilhas
- há 1 dia
- 8 min de leitura
Série Guia EPI | 07 de 30
A perda auditiva induzida por ruído — conhecida como PAIR — é uma das doenças ocupacionais mais comuns no Brasil e no mundo. Silenciosa, progressiva e irreversível, ela se instala ao longo de anos de exposição a níveis elevados de ruído sem proteção adequada. Quando o trabalhador percebe que está ouvindo menos, o dano já está feito — e não tem cura.
O protetor auricular é o EPI responsável por prevenir esse dano. Mas para funcionar de verdade, ele precisa ser o tipo certo para o nível de ruído da atividade, estar sendo usado corretamente e permanecer em uso durante 100% do tempo de exposição. Qualquer falha em qualquer um desses pontos compromete drasticamente a proteção.

Neste sétimo artigo da série Guia EPI, vamos detalhar os tipos de protetor auricular disponíveis no mercado, o que significam os índices de atenuação, como escolher o modelo adequado para cada situação e os erros mais comuns que eliminam a proteção sem que o trabalhador perceba.
O que é o protetor auricular e para que serve?
O protetor auricular é um EPI destinado a reduzir a quantidade de energia sonora que chega ao ouvido interno, protegendo as células ciliadas da cóclea — estruturas responsáveis pela conversão do som em sinais elétricos para o cérebro. Uma vez destruídas pela exposição excessiva ao ruído, essas células não se regeneram.
A exposição ao ruído que causa dano auditivo não precisa ser imediata ou dolorosa. Ruídos contínuos acima de 85 dB(A) ao longo de uma jornada de trabalho já são suficientes para causar dano progressivo — e a NR-15 estabelece os limites de tolerância para exposição ocupacional ao ruído no Brasil.
O protetor auricular atua criando uma barreira física ou um sistema de atenuação que reduz o nível de pressão sonora que chega ao tímpano, mantendo a exposição dentro dos limites seguros.
Tipos de protetor auricular
Existem dois grandes grupos de protetores auriculares: o tipo concha e o tipo plug (ou inserção). Cada um tem características, vantagens e limitações específicas.
Protetor tipo concha (abafador)
O protetor tipo concha — também chamado de abafador — é composto por duas conchas rígidas que encobrem completamente o pavilhão auditivo externo, pressionadas contra a cabeça por uma haste de aço ou plástico. A vedação é feita por almofadas de espuma ou gel que contornam a orelha.
Vantagens:
Fácil de colocar e retirar — não exige técnica de inserção
Visível — o supervisor consegue verificar se está sendo usado
Pode ser integrado ao capacete de segurança em modelos específicos
Higienicamente superior ao plug em ambientes compartilhados — não entra em contato com o canal auditivo
Limitações:
Mais pesado e volumoso — pode causar desconforto em uso prolongado
Pode ser incompatível com alguns modelos de capacete, óculos de segurança e protetores faciais
Em ambientes muito quentes, as almofadas causam desconforto pelo calor acumulado
A atenuação pode ser comprometida por óculos, brincos ou cabelo interposto entre a almofada e a cabeça
Quando é indicado:
Atividades com exposição intermitente ao ruído — o trabalhador coloca e retira com frequência
Ambientes onde a visibilidade do uso é importante para o controle
Trabalhadores que têm dificuldade com a técnica de inserção do plug
Uso combinado com capacete quando existe adaptador específico
Protetor tipo plug (inserção)
O protetor tipo plug é inserido diretamente no canal auditivo, criando uma vedação que bloqueia a passagem do som. Existem três variações principais:
Plug de espuma
Fabricado em espuma de poliuretano ou PVC, é descartável e de uso único — ou, no máximo, de uso por um dia de trabalho. Deve ser amassado com os dedos, inserido no canal e expandido até vedar completamente.
Vantagens:
Alta atenuação — geralmente os maiores valores de NRR do mercado
Extremamente leve e confortável quando inserido corretamente
Baixo custo — ideal para uso em larga escala
Descartável — sem necessidade de higienização
Limitações:
Exige técnica de inserção correta — quando mal inserido, a atenuação cai drasticamente
Difícil de verificar visualmente se está bem posicionado
Mãos sujas durante a inserção introduzem contaminantes no canal auditivo
Inadequado para trabalhadores com canal auditivo estreito ou com condições específicas do ouvido
Quando é indicado:
Exposição contínua a ruídos elevados durante toda a jornada
Ambientes muito quentes, onde o concha seria desconfortável
Atividades onde o tamanho e o peso do protetor precisam ser mínimos
Plug pré-moldado
Fabricado em silicone, borracha ou PVC macio, o plug pré-moldado tem formato cônico ou com flanges (abas) que se adaptam ao canal auditivo sem necessidade de amassamento. É reutilizável e precisa ser higienizado regularmente.
Vantagens:
Reutilizável — mais econômico a longo prazo
Inserção mais simples que o plug de espuma
Disponível em diferentes tamanhos para diferentes anatomias
Pode ser conectado a um cordão para evitar perdas
Limitações:
Atenuação geralmente menor que o plug de espuma
Exige higienização regular — negligenciada com frequência na prática
Pode não vedar adequadamente em canais auditivos com anatomia atípica
Quando é indicado:
Trabalhadores que precisam retirar e recolocar o protetor com frequência
Situações onde o custo de uso contínuo de descartáveis é elevado
Ambientes com níveis de ruído moderados a altos
Plug moldável (personalizado)
Fabricado a partir de um molde do canal auditivo do próprio trabalhador, oferece ajuste perfeito e vedação superior. É o tipo mais caro e normalmente indicado para trabalhadores com exposição crônica a ruídos muito elevados.
Vantagens:
Ajuste perfeito — máxima vedação e conforto
Longa vida útil quando bem conservado
Atenuação consistente — independe da técnica de inserção
Limitações:
Custo elevado de fabricação
Exige consulta com profissional habilitado para a moldagem
Mudanças na anatomia do canal (por ganho ou perda de peso, cirurgias) podem comprometer o ajuste
Quando é indicado:
Trabalhadores com exposição diária e prolongada a ruídos muito elevados
Casos onde outros tipos de plug não oferecem vedação adequada
Trabalhadores com histórico de intolerância a outros modelos
O que significa NRR e NRRsf?
A eficácia de um protetor auricular é medida pelo seu índice de atenuação. No Brasil, dois índices são utilizados:
NRR (Noise Reduction Rating): índice americano, expresso em dB, que representa a atenuação máxima do protetor em condições de laboratório. Por ser medido em condições ideais, o NRR superestima a atenuação real no ambiente de trabalho.
NRRsf (Noise Reduction Rating — Subject Fit): versão ajustada do NRR que considera a variabilidade do uso real — diferentes anatomias, técnicas de inserção e condições de trabalho. É um índice mais conservador e mais próximo da atenuação que o trabalhador vai obter na prática.
Como usar esses índices na escolha:
O técnico de segurança precisa conhecer o nível de ruído do ambiente — medido em dB(A) — e selecionar um protetor cuja atenuação, aplicada sobre esse nível, resulte em uma exposição dentro dos limites da NR-15.
Uma regra prática amplamente utilizada é o método de metade do NRR: divide-se o NRR por 2 e subtrai-se 7 dB do resultado para estimar a atenuação real em campo. Esse método é conservador e recomendado pela maioria dos programas de conservação auditiva.
Exemplo: um protetor com NRR 33 dB oferece, na prática, aproximadamente (33/2) - 7 = 9,5 dB de atenuação real em condições de uso típico.
Como inserir corretamente o plug de espuma
A técnica de inserção é o fator mais crítico para a eficácia do plug de espuma — e também o mais negligenciado. Um plug mal inserido pode oferecer menos de 20% da atenuação declarada no produto.
O procedimento correto é:
Limpe as mãos antes de manusear o plug — mãos sujas introduzem contaminantes no canal auditivo.
Amasse o plug rolando-o entre os dedos até formar um cilindro fino e uniforme, sem dobras. Quanto mais fino e uniforme, melhor a inserção.
Puxe a orelha com a mão oposta — levante e puxe levemente o pavilhão auditivo para cima e para trás, o que alinha e abre o canal auditivo.
Insira o plug com um movimento suave e firme, posicionando-o profundamente no canal. O plug deve entrar sem forçar.
Segure por 20 a 30 segundos com o dedo pressionando levemente o plug enquanto ele expande. Soltar antes da expansão completa compromete a vedação.
Verifique a inserção: com o plug inserido corretamente, você deve sentir uma redução imediata e significativa do ruído ambiente. Se não sentir essa diferença, reinsira.

Como escolher o protetor auricular certo
A escolha deve levar em conta três fatores principais:
Nível de ruído do ambiente: medido por um profissional habilitado com decibelímetro ou dosímetro. O protetor deve ter atenuação suficiente para reduzir a exposição a níveis abaixo dos limites da NR-15.
Compatibilidade com outros EPIs: o protetor auricular precisa ser compatível com o capacete, óculos de segurança e protetor facial usados na mesma atividade. Protetores tipo concha integrados ao capacete são uma solução eficiente para quem usa múltiplos EPIs simultaneamente.
Conforto e adesão: o melhor protetor auricular é aquele que o trabalhador vai usar durante 100% do tempo de exposição. Um protetor desconfortável vai ser retirado — e mesmo períodos curtos sem proteção comprometem drasticamente a eficácia diária. Se o trabalhador retira o protetor por apenas 30 minutos em uma jornada de 8 horas, a exposição real pode ser até 8 vezes maior do que a calculada.
Erros mais comuns no uso do protetor auricular
Plug inserido superficialmente: o erro mais comum e o mais grave. Um plug posicionado na entrada do canal em vez de no interior oferece proteção mínima.
Retirar o protetor em momentos de "ruído menor": qualquer período sem proteção em ambiente ruidoso acumula exposição. Não existe "barulho que não precisa de proteção" quando o ambiente está acima do limite.
Usar plug com mãos sujas: introduz contaminantes no canal auditivo, aumentando o risco de otites e infecções.
Compartilhar protetores reutilizáveis: além do risco de infecção cruzada, compromete a higiene e pode deformar o plug para uma anatomia diferente da sua.
Usar protetor vencido ou deformado: plugs de espuma deformados e conchas com almofadas ressecadas ou rachadas não vedam adequadamente — e portanto não protegem.
Não higienizar protetores reutilizáveis: o acúmulo de cerume, suor e resíduos compromete a vedação e cria risco de infecção.
Vida útil e higienização
Plug de espuma descartável: uso único ou, no máximo, um dia de trabalho. Descarte ao final do expediente ou quando estiver sujo ou deformado.
Plug pré-moldado reutilizável: higienize diariamente com água morna e sabão neutro. Seque completamente antes de reutilizar. Substitua quando apresentar deformação, endurecimento ou perda de elasticidade — em geral, a cada 3 a 6 meses de uso contínuo.
Protetor tipo concha: limpe as almofadas regularmente com pano umedecido em água e sabão neutro. Substitua as almofadas quando ressecadas, rachadas ou quando perderem a maciez — a almofada danificada compromete a vedação. A estrutura da concha deve ser substituída quando apresentar trincas, deformações ou quando o mecanismo de ajuste da haste estiver comprometido.
O que diz a norma sobre proteção auditiva
NR-15 — Atividades e operações insalubres: estabelece os limites de tolerância para exposição ao ruído contínuo e de impacto no ambiente de trabalho. Acima dos limites, o uso de protetor auricular é obrigatório e a atividade é considerada insalubre.
NR-9 / PGR — Programa de Gerenciamento de Riscos: exige a avaliação quantitativa do ruído no ambiente de trabalho e a definição das medidas de controle, incluindo a especificação do protetor auricular adequado.
PAIR — Programa de Conservação Auditiva (PCA): recomendado pela NR-9 e pelo PCMSO, o PCA é um conjunto de ações que inclui monitoramento do ruído, seleção e fornecimento de protetores, treinamento, audiometrias periódicas e registro. Empresas com trabalhadores expostos a ruído acima dos limites devem implantá-lo.
Resumo
O protetor auricular previne a PAIR — perda auditiva irreversível causada por exposição crônica ao ruído ocupacional.
Existem dois grandes tipos: concha (abafador) e plug (espuma, pré-moldado ou moldável).
A escolha depende do nível de ruído, da compatibilidade com outros EPIs e do conforto para garantir o uso contínuo.
O NRR e o NRRsf indicam a atenuação do protetor — use o método de metade do NRR para estimar a atenuação real em campo.
A técnica de inserção do plug de espuma é crítica — um plug mal inserido pode oferecer menos de 20% da atenuação declarada.
Retirar o protetor por apenas 30 minutos em uma jornada de 8 horas pode multiplicar a exposição ao ruído por até 8 vezes.
Higienize e substitua os protetores conforme a vida útil de cada tipo.
Artigo anterior da série: — GUIA EPI #6 - Capacete de segurança: vida útil, quando trocar e como armazenar corretamente
Próximo artigo da série: — GUIA EPI 8 - Óculos de segurança: tipos
Ampla visão, solda, laser, UV, respingos químicos — qual usar em cada situação (EM BREVE)




Comentários